Césio-137: O Pó que Brilhava Azul e Contaminou uma Cidade Inteira

Era setembro de 1987. Dois catadores de ferro-velho entraram nas ruínas de uma clínica abandonada no centro de Goiânia. Encontraram uma máquina pesada, com peças metálicas valiosas. Desmontaram o que puderam e levaram embora.
Dentro daquela máquina havia uma cápsula lacrada com 93 gramas de cloreto de Césio-137 em pó — um dos materiais radioativos mais perigosos usados na medicina. Ninguém sabia. Ninguém havia registrado aquele equipamento. E nas semanas seguintes, o pó brilhante que vazou dessa cápsula se espalhou por 42 endereços diferentes em Goiânia, contaminou 249 pessoas, matou quatro e entrou para a história como o pior acidente radioativo urbano já registrado fora de uma usina nuclear.
Não foi Chernobyl. Não foi uma falha de reator. Foi uma cidade comum, uma máquina esquecida, e um erro que ninguém conseguiu parar por 16 dias.
O que era aquela máquina abandonada?
O Instituto Goiano de Radioterapia funcionou durante anos como um centro de tratamento de câncer em Goiânia. Em 1985, uma disputa judicial forçou o encerramento das atividades. O equipamento ficou para trás. O prédio foi abandonado.
A máquina que os catadores encontraram era um aparelho de telecobaltoterapia modelo Picker C-3000 — usado para direcionar radiação em tumores. No coração do equipamento havia um compartimento blindado de aço e chumbo contendo uma cápsula com 93 gramas de cloreto de Césio-137 em pó.
O Césio-137 é um subproduto de usinas nucleares, altamente radioativo, com capacidade de emitir radiação gama penetrante. Na medicina, era usado em doses controladas para radioterapia. Na forma de pó, fora de qualquer blindagem, é um agente de contaminação de enorme poder.
O detalhe que tornou tudo mais grave: a CNEN, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, não sabia que aquele equipamento existia. Nunca foi registrado. Ficou dois anos numa clínica abandonada no centro de uma capital brasileira, sem que nenhuma autoridade verificasse onde estava ou o que continha.
Em 13 de setembro de 1987, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira entraram nas ruínas e removeram a cabeça giratória do aparelho — a parte que continha a cápsula. Levaram para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira.
O pó que parecia purpurina — como a contaminação se espalhou
Devair começou a desmontar a peça em busca do metal que poderia vender. Em 16 de setembro, três dias depois, ele furou a cápsula com uma chave de fenda. E o pó saiu.
Era azul. Brilhava no escuro com uma luz viva e quase mágica — uma luminescência que ninguém ali havia visto antes. Devair ficou fascinado. Mostrou para a família. Mostrou para vizinhos. Chamou amigos. O brilho parecia algo precioso, misterioso, talvez sobrenatural.
Seu irmão Ivo Ferreira levou um pedaço do material para casa. Sua sobrinha Leide das Neves, de 6 anos, brincou com o pó no chão. Passou nas mãos, no rosto, no corpo — como se fosse purpurina. Comeu um sanduíche com as mãos contaminadas sem lavar.
Devair vendeu pedaços do equipamento para outros ferros-velhos. O metal contaminado foi para diferentes compradores. Pessoas levaram fragmentos para casa. Crianças brincaram com as peças. Em questão de dias, a contaminação havia se espalhado para 42 endereços diferentes em Goiânia — casas, oficinas, ruas, carros.
O Césio-137 não tem cheiro. Não tem cor visível sem a cápsula aberta. Não causa dor imediata. Ninguém sabia que estava sendo irradiado. E continuaram sendo, por mais de duas semanas.
Os primeiros sintomas e a falha médica que agravou tudo
Os primeiros sintomas começaram a aparecer em dias. Náuseas, vômitos, diarreia, sensação de queimação na pele, feridas que não cicatrizavam. Queda de cabelo. Inchaço nas mãos. Fraqueza inexplicável.
As pessoas foram a médicos. Médicos diagnosticaram gastroenterite. Alergia. Dermatite. Infecção de pele. Os hospitais de Goiânia não tinham protocolo para doença por radiação — e os sintomas iniciais se confundiam com dezenas de outras condições. Ninguém fez a conexão.
Por duas semanas, pessoas continuaram se contaminando, visitando umas às outras, levando objetos contaminados. O ferro-velho de Devair continuava aberto. A cápsula continuava sendo manuseada.
Quem finalmente forçou a identificação foi Gabriela Maria Ferreira, esposa de Devair. Em 28 de setembro — quinze dias após o início da crise — ela foi ao Instituto Médico Legal com uma sacola plástica contendo pedaços do material brilhante. Disse ao médico que acreditava que aquilo estava deixando as pessoas doentes.
O físico Walmir Freitas Oliveira, do Hospital das Clínicas de Goiânia, mediu a sacola com um Geiger. O contador foi ao máximo da escala. Ele evacuou o prédio imediatamente e acionou a CNEN.
Em 29 de setembro de 1987, a emergência nuclear foi declarada. A essa altura, o Césio-137 já estava espalhado por 42 endereços, em fragmentos em casas, em roupas lavadas, em crianças que haviam tocado o material e dormido em suas camas. Dezesseis dias haviam se passado desde que a cápsula foi aberta.

Os números que chocaram o mundo
249 pessoas contaminadas
Número oficial confirmado pela CNEN após triagem. Dessas, 49 apresentaram contaminação interna — ingeriram ou inalaram partículas de Césio-137.
4 mortes imediatas
Leide das Neves Ferreira, 6 anos (23/10/1987) · Admilson Alves de Souza, 18 anos · Israel Batista dos Santos, 22 anos · Gabriela Maria Ferreira, 37 anos — a mulher que alertou as autoridades.
42 locais contaminados, 7 casas demolidas
Casas, oficinas, ferro-velhos e ruas inteiras contaminados. Sete imóveis foram completamente demolidos e o entulho tratado como resíduo radioativo.
112.000 pessoas buscaram triagem
O pânico levou mais de cem mil goianienses ao Estádio Olímpico para serem examinados. Filas de quilômetros, medidores Geiger em cada entrada, cidade em estado de terror.
3,5 toneladas de resíduo radioativo
Solo contaminado, roupas, móveis, paredes demolidas — tudo foi acondicionado em 1.469 tambores de 200 litros cada. O volume total de resíduo gerado pelo acidente foi de 3,5 toneladas.
O que aconteceu com os sobreviventes — amputações, infertilidade, câncer décadas depois
Sobreviver ao Césio-137 não encerrou o sofrimento. Para muitos, foi apenas o começo de uma vida diferente.
Roberto dos Santos Alves, um dos catadores que desmontou a máquina original, teve ambos os antebraços amputados. A dose de radiação que recebeu destruiu o tecido de forma irreversível. Ele perdeu também a visão de um olho.
Devair Ferreira, o dono do ferro-velho, sobreviveu ao acidente agudo mas carregou sequelas severas. Úlceras internas, danos hepáticos, sistema imunológico permanentemente comprometido. Morreu em 1994, aos 43 anos, de cirrose hepática — agravada, segundo médicos, pelo dano causado pela radiação.
Os 49 contaminados internamente enfrentaram décadas de acompanhamento médico. Estudos publicados nos anos 2000 e 2010 documentaram taxas elevadas de cânceres em sobreviventes e em moradores das áreas contaminadas — leucemia, tumores de tireoide, cânceres de pulmão. Problemas de fertilidade foram relatados em mulheres jovens que haviam estado em contato direto com o material.
Além das sequelas físicas, houve uma crise social sem precedentes. Goianienses foram impedidos de se hospedar em hotéis em outras cidades. Produtos agrícolas de Goiás foram boicotados em supermercados de São Paulo e Rio de Janeiro. Ônibus de Goiânia foram proibidos de circular em estados vizinhos. O estigma durou anos — e para algumas famílias, nunca desapareceu completamente.
Goiânia hoje — o entulho radioativo ainda está enterrado?
Sim — e estará por séculos.

Os 1.469 tambores com resíduo radioativo do acidente de 1987 foram transportados para Abadia de Goiás, um município a 25 quilômetros de Goiânia, onde existe um depósito intermediário operado pela CNEN. O local foi construído especificamente para este fim — e funciona até hoje.
O depósito não é solução permanente. É temporário — e essa temporariedade dura desde 1987. Décadas depois do acidente, o Brasil ainda não possui um repositório definitivo para rejeitos radioativos de média e baixa atividade. A decisão sobre onde e como enterrar definitivamente esse material permanece em debate.
O prédio original do Instituto Goiano de Radioterapia foi demolido. No local onde existia, há hoje um pequeno espaço de memória. Nada grandiose. Nada que chame atenção. A maioria das pessoas que passa ali não sabe o que aconteceu.
A cidade continuou. As famílias se dispersaram. Os sobreviventes envelheceram. Mas o Césio-137 não desapareceu — e não vai desaparecer tão cedo. Com meia-vida de 30 anos, o material do acidente de 1987 ainda será significativamente radioativo em 2287.
5 Curiosidades que a maioria não sabe
O brilho azul tem nome científico: Radiação Cherenkov
A luminescência azul do Césio-137 é chamada Radiação Cherenkov. Acontece quando partículas radioativas viajam por um meio (como ar ou água) mais rápido do que a luz consegue se propagar naquele meio. É o equivalente eletromagnético de uma explosão sônica — um "boom" de luz. O fenômeno é o mesmo que faz reatores nucleares dentro da água brilharem com uma luz azul inconfundível.
Por que a ONU classifica Goiânia como o pior acidente radioativo urbano da história
A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) classificou o acidente de Goiânia como nível 5 na escala INES (Escala Internacional de Eventos Nucleares), de 7 níveis. Chernobyl foi nível 7 — mas dentro de uma usina nuclear, num ambiente já controlado e isolado. Goiânia foi nível 5 dentro de uma cidade comum, com contaminação espalhada por bairros inteiros, atingindo civis sem qualquer treinamento ou equipamento de proteção. Nenhum outro acidente com material radioativo em ambiente urbano chegou perto em escopo e impacto.
O que Leide das Neves, de 6 anos, fez com o pó
Leide passou o pó brilhante no rosto, nos braços e no peito — como se fosse maquiagem ou tinta de brincar. Chamou o avô para ver o quanto estava "bonita". Comeu com as mãos sem lavá-las. Quando morreu, 40 dias após a contaminação, estava tão irradiada que a Igreja Católica recusou inicialmente o enterro no cemitério local — moradores bloquearam o caixão com pedras e paus, com medo de contaminação. Ela foi sepultada em caixão de chumbo, selado com cimento, no Cemitério da Saudade. Tinha 6 anos.
Quanto tempo o Césio-137 leva para deixar de ser radioativo
O Césio-137 tem meia-vida de 30,17 anos — o que significa que a cada 30 anos, metade do material decai para uma forma estável. Mas para chegar a níveis considerados seguros são necessárias cerca de 10 meias-vidas, ou seja, aproximadamente 300 anos. O material do acidente de Goiânia em 1987 só será considerado seguro por volta do ano 2287. Três séculos depois do acidente.
O Brasil criou uma lei específica após o acidente — o que ela proíbe
Antes de 1987, o Brasil não tinha legislação específica para controlar o destino de equipamentos médicos com material radioativo quando uma clínica fechava. Após o acidente, o Congresso aprovou a Lei 9.425/1996, que tornou obrigatório o registro e rastreamento de todas as fontes radioativas em uso no país, e determinou que equipamentos de radioterapia não podem ser abandonados — devem ser devolvidos ao fabricante ou entregues à CNEN ao fim da vida útil. A lei também criou penalidades criminais para o abandono de material radioativo em qualquer circunstância.
Conclusão: O que uma cidade sabe que não pode esquecer
O acidente do Césio-137 não foi causado por um reator em colapso nem por uma guerra. Foi causado por burocracia — um equipamento sem registro, uma clínica fechada sem protocolo, uma cidade que não sabia o que tinha dentro dela.
Leide das Neves tinha 6 anos e achou o pó azul bonito. Devair Ferreira achou que havia encontrado algo precioso. Os médicos acharam que era gastroenterite. Cada passo em direção à catástrofe foi dado por pessoas que simplesmente não sabiam o que estavam fazendo — porque ninguém tinha contado a elas o que havia ali.
O Césio-137 de Goiânia ainda existe. Está em tambores em Abadia de Goiás, aguardando uma decisão que o Brasil ainda não tomou sobre onde colocá-lo definitivamente. Estará lá quando você terminar de ler este artigo. Estará lá daqui a 50 anos. Daqui a 100.
O que acontece quando uma sociedade esquece o que não pode esquecer — e o quanto falta para que o próximo acidente como esse seja simplesmente impossível de acontecer?
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